sábado, 16 de janeiro de 2016

castanheiro e o ribeiro


Quantas vezes as tuas águas passam por mim, as tuas águas cristalinas, claras e límpidas, trazem a humidade refrescante, aquela sensação invisível de frescura. Eu ali sozinha, como árvore isolada, estendo os meus largos ramos à vontade e sem medos, só eu ali, e o meu curso de água companheiro, que tão perto e junto das minhas raízes passam. Se a sede apertar,... na verdade não aperta, porque essas minhas raízes ali estão para sorver o precioso liquído.
No solo que decompós as folhas de outono, mas que nada mais resta em mim, senão os meus raminhos nus e despidos prontos para daqui a uns meses estarem revestidos de verde e folhagem brilhante, mas enquanto não chega, continuo neste estender de ramos desabraçados e ocupantes deste espaço...
Preciso de um bosque, preciso de uma floresta, porque já nada me resta senão a tua companhia, e o teu transparente liquído, doce ribeiro.
Sem a tua presença, continuaria uma desavença, e uma amargura que nem os raios de sol curam, mas o tempo nublado de agora mostra-me a ti e a mim com as cores ternas e definidas, aqueles tons castanhos e dos verdes dissimulados, dos musgos encantados, encravados no meu tronco rugoso e nos ramos lisos, pintando-me de verde ou sarapintando com o claro dos líquenes, nessa viva pintura que se me apodera...
Mas tenho de viver o inverno e esperar que as lindas folhas juntem ainda mais verde a essa pintura, aquele verde fresco e com cheiro a primavera, era o que eu queria, mas agora não, só tenho de me resistir ao clima incerto de novas épocas, e de me conformar como habitualmente com a chuva torrencial que cairá, é uma questão de tempo, e com a neve, será que ela vem após o frio intenso... Mas se essas chuvas fortes que tardaram em chegar chegarem irão transbordar-te meu ribeiro companheiro, que soarás mais barulhento, enquanto eu invento pensamentos bonitos do meu belo habitat. Do meu lar e da minha eterna montanha que me viu nascer, que me viu criar e me fez desenvolver forte com este porte que apresento. Não tento que os meus baixos ramos se mantenham curvados para cima, nem preciso, se o espaço solitário e o vazio deixado é grande...
A minha montanha que me dá a água que eu preciso e que eu canaliso pelos veios internos, pela madeira clara e dura por todo o eu...
Nunca nos vamos separar, tu e eu, árvore e ribeiro, eu castanheiro e tu o curso de água doce, unidos neste habitat e na composição no passar das estações do ano, e moldar-mo-nos face à evolução das coisas... Porque é o meu clima, e onde eu vivo, nesta meia encosta, a minha terra, o meu solo, as minhas plantas,... mas, espera,... nada é meu, apenas partilhado, para me continuar a fazer companhia durante séculos, até morrer de pé ou pela doença que muitos irmãos meus dizimaram, ou pela sede de material do homem, até lá, viverei... Eu castanheiro, contigo, o meu lindo curso de água, a minha ribeira, o meu ribeiro, minhas águas, meu imortal desejo de bosque insaciado, meu viver pulsante e incandescente,... para sempre,...

by Rui Faria
Castanea sativa na encosta norte da serra da Cabreira, numa pequena história, ...
O castanheiro...
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