quinta-feira, 5 de novembro de 2015

conto da gaivota


Viajante oceânica, sempre acima da ondulação sempre em mares e oceanos, poisando em terra, quando o cancaço impera, e o repouso urge, é tempo de asseio, limpeza da penugem e das penas de voo. Gaivota, que pintas os céus, nos cenários bucólicos do nascer ao pôr do sol, cenários ás vezes pintados com a tua silhueta em forma de W, mas na realidade visivel, de toda a orla costeira. Viajante com rumo e sem rumo, percorres quilómetros sem fim em busca de melhores condições e alimento em abundáncia, voando e planando sobre mares calmos e mares revoltos, ás vezes atordoada por ventos fortes, ás vezes divertes-te com esses mesmos ventos que te empurram e te levam pelo ambiente, e tu so te deixas planar, guiar e voar, voar mas pouco. Em bandos gostas de estar, na companhia de dezenas centenas ou milhares, iguais a ti ou de espécies diferentes, aparentadas ou de outros grupos. Na companhia desses e deles, descansando, repousando e limpando, mantendo essa tua máquina pronta para a aventura da vida e pronta para as agruras do oceano, e do sal corrosivo. Para isso te banhas nos estuários ou desembocaduras de grandes e pequenos rios, ali repões as tuas energias, e até podes aproveitar oportunidades de alimento esporádicas que possam surgir. Pois esses rios, podem trazer oportunidades do ambiente terrestre.
No meio da praia estás sossegada, e mesmo que não te sintas pressionada, és capaz de levantar voo ao sinal de alarme das tuas companheiras, perturbadas, por algum sujeito e tu levantas voo como resposta à dinámica do bando, como defesa ou instinto, como proteção, e poisas logo que as outras poisem, ou quando o perigo estiver passado.
Duas grandes viagens fazes todos os anos, com a promessa de encontrar abundáncia e condições mais favoráveis tanto na ida como na volta, mas na realidade não tens ida nem volta, e o teu território é o norte e o sul, por isso não se diz ida nem volta, pois pode sê-lo e de facto o é para ambos os lados.
Segues a costa linear, e consegues e avanças pelas grandes massas de água do interior, indiferente à passagem do ambiente terrestre, ou por vezes seguindo o curso dos rios até montante. Divides o teu tempo entre lá e cá. Mas é na costa que pertences, é na costa, que os teus sons se projetam pela ar espirrado e salgado, pelo meio do som da rebentação ou pelas ondinhas que levemente embatem nas areias ou nos rochedos. Tu que nesse rochedo te encontras na subida da maré, estarrecida, deixada pelo descanso, e presente. Mas atrai-te a maré baixa, e nesses baixios também descansas. Mas quando vem a fome és generalista, e aproveitas o rebuliço pesqueiro do Homem, oportunista, vês uma oportunidade fácil de conseguir peixe, sem dispender muita energia. Com isso, formas mais uma vez um quadro clássico, tu e o teu bando, barulhento, seguindo o modo de vida tradicional pesqueiro daqueles homens. E a par da sua benevolencia, que sempre tolerou a tua convivência.

by Rui Faria- algures na costa norte de Portugal
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