sexta-feira, 7 de agosto de 2015

glacial valley of Gerês


Vista diagonal do vale em U da direita (em cima) para o centro. E o destaque para os 3 vales que se unem no centro da albufeira da Caniçada.


O magnífico vale glaciar do Parque Nacional da Peneda Gerês:
Mais propriamente tratando-se de uma falha geológica (falha geológica do Gerês-Lovios), esta está relacionada com tensões que levaram a uma fraturação tardia, que cortou e deslocou os granitos da região. Tem uma direção NNE-SSW e é responsável pela deslocação dos vales dos rios Cávado e Homem e pelas nascentes termais da Vila do Gerês e do Rio Caldo. Pela plataforma de observação terrestre da google, esta falha evidenciam-se dentro da área do parque nacional, em uma linha reta perfeita. (fonte: http://www.icnf.pt/portal/ap/resource/ap/pnpg/brochur2013)
É um típico vale de perfil em U e moreias laterais evidenciando a ação de antigos glaciares. Há 2 milhões de anos, no Quaternário, ocorreram importantes variações climáticas que contribuíram para a formação deste terreno tal e qual como o conhecemos hoje. As glaciações então registadas atingiram as latitudes médias deixando marcas evidentes nas serras da Peneda e Gerês, como circos e vales glaciares. Este em particular tem um perfil em "U" em vez de "V" típico dos vales fluviais. Encontram-se ainda depósitos de materiais arrastados pelos glaciares, acumulações de calhaus e blocos, mais ou menos alinhados, designados por moreias. Formações geológicas de grande beleza natural e de proporções épicas, deixam o passado glaciar para trás, para hoje se verem revistadas por uma rica e variada floresta, no caso deste vale, que lentamente se ocupou destes terrenos íngremes e húmidos. As elevadas quantidades de precipitação que se fazem sentir ao longo do ano com maior incidência no Inverno, fazem o verde predominar, verde das grossas capas de musgos de diferentes espécies que se acantonam nas penedias e por todo o material lenhoso e ritidomas. Almofadas musgosas como lhes costumo chamar tal é a grossura dessas capas. Diferentes espécies de briófitas sucedem-se por todos os substratos encavalitando-se umas nas outras. 
Relíquias de uma época mais quente (terciário) e anterior á formação deste vale como seja o azevinho Ilex aquifolium e Prunus lusitanica, encontraram lugar lado a lado ou quase lado a lado com os medronheiros Arbutus unedo por exemplo! Medronheiros possantes e maciços na serra da preguiça, tão antigos e tão maravilhosos,...
Estas três árvores, com especial incidência para o azevinho proliferam pela manta florestal, ajudadas em muito pela dispersão dos vertebrados. A imagem abaixo é alusiva desse aspecto, em que as sementes das bagas passam pelo trato digestivo do animal quase intocadas. Fotografada no local num trilho de acesso ao alto da serra do gerês.


 Digo azevinho, porque foi a árvore com regeneração mais abundante que observei ao nível de pequeninas plantas, pequeninas árvores indicadoras da complexidade tridimensional destes bosques.



O jovem Erithacus rubecula, começa a entoar o seu leve canto, e tal como os adultos, não é muito tímido e aproxima-se, curioso! Afinal, os genes dos adultos destemidos transmitem-se em força, aliado a isso uma terra como esta com pouca perturbação e sem caça. (pisco-de-peito-ruivo)



Um dos maiores fetos-comuns Pteridium aquilinum que já havia visto, com mais de 2 metros de altura e frondes largas e grossas, em zona de meia sombra, cresce desmesuradamente!. Em muito contribui os férteis solos e a abundante precipitação bem como as condições micro-climáticas do local. A par da Culcita macrocarpa e de Osmunda regalis, são as maiores pteridófitas da península ibérica.


Argynnis sp.

Hemiptera sp.



Os cursos de água que se encontram no rio principal, o rio que dá o nome à famosa vila, encontram-se todos com o caudal muito reduzido, ora não estaríamos no início de Agosto!, pequenos fios de água refrescantes que descem os seus cursos habituais mais silenciosamente. Novas áreas ficam expostas com o abrandar das correntes, criando uma nova série de micro-habitats temporários para invertebrados e anfíbios,


Feto-real Osmunda regalis a cerca de 800 metros de altitute.


Os dípteros de imensas espécies, são como seria de esperar super abundantes, por aqui. Com as suas colorações intrigantes e tamanhos diversos, surpreendem-me!


Panaxia quadripunctaria

Lacerta schreiberi, lagarto-de-água juvenil


Acer pseudoplatanus




 Acima, um achado curioso num tronco de um medronheiro: uma imagem de um percevejo Hemiptera que tem um disfarce peculiar, e mimetiza as formigas pretas, que também se encontram por perto (imagem esquerda), pela imagem desse percevejo, deduzo que não tem asas, ou reduziu-as na evolução para se assemelhar cada vez mais às formigas. Até o seu movimentar é em tudo semelhante a elas, com movimentos rápidos e aleatórios seguidos de paragens bruscas e imóveis. Mas porque terá adquirido este mimetismo? Terá no seu ciclo de vida alguma relação com as formigas? Parasitária?, ou será simplesmente a velha e clássica história de ludibriar os predadores? Qualquer que seja o motivo ou os motivos (porque nunca existe um isolado), é um inseto fantástico que retrata muito bem até onde os invertebrados são capazes de ir, mesmo relações que à partida para nós parecessem estranhas, "é como se uma vaca se disfarçasse de cavalo!". Isto é, estamos a falar de hemipteros (cima) e himenópteros (esq.), mas não é novidade porque existem imensas relações deste género em outros grupos de insetos, uma mosca que emita uma vespa, uma borboleta que imita uma vespa, uma lagarta que imita uma centopeia, e por aí fora!...


Bosque de Prunus lusitanica com imponentes Quercus robur

Para mais informações sobre este vale consultar "A glaciação plistocénica da serra do gerês"  http://www.ceg.ul.pt/finisterra/numeros/2000-69/69_03.pdf

by Rui Faria- in north of Portugal
(todas as imagens deste blogue são registadas por mim, Nikon P600)



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